Primeiro Nemésio não estava, ouvimos uma voz vindo de dentro de sua casa. Parecia a voz de uma senhora de idade, com timbre de rádio sintonizado.
No dia seguinte Nemésio perguntou pelas vozes que ouvimos e contamos como era. Ele disse não ter rádio nem TV em casa.
Nemésio certamente queria saber se o que ouvimos coincidia com a voz de uma determinada entidade amiga. Logo ver-se-á porque.
Nemésio é corpulento, de mãos grossas e tem um metro e oitenta de altura. Um de seus olhos azuis estava com o glóbulo vermelho cheio de sangue, o que lhe conferia um aspecto perturbador quando somado a seu silêncio, seu olhar brilhante, seu sorriso sugestivo.
Ele disse que o sangue era de um acidente de moto.
Nemésio mora sozinho. Ao falar de pessoas próximas, refere-se apenas a sua mãe e sua irmã.
Nemésio conta que Nemesis era um navio inglês da Guerra do Ópio, o primeiro navio de guerra feito de aço a navegar pelo oceano. Os chineses chamavam-no “the devil ship”, o navio do diabo.
Nemésio afirma que nessa localidade habitavam janduís, e que eram índios canibais, “comiam gente”. “A primeira vez que chegaram aqui botaram tudo na brasa. Se comunicavam com outros grupos pelo poder da mente. Conheciam os magnetismos. Tinham um poder grande que os alemães buscavam.”
Nemésio falou dos alemães que por ali passaram, financiados pela Princesa Leopoldina. Referia-se à expedição de Spix e Martius. Disse que o verdadeiro objetivo da expedição era adquirir dos índios o poder mágico de se comunicar pela mente.
Os janduís foram índios bélicos que fizeram parte da grande confederação dos cariris. Habitavam o Rio Grande do Norte e a Paraíba. Até o momento não encontramos documentos que provassem que estiveram no Quixadá. O que não impede que tenham estado, já que os canindé lhes descendem.
Nemésio conta que em certas madrugadas uma entidade branca e uma indígena aparecem em sua casa. O homem branco bate em sua janela e o leva até o índio baixinho, “todo cinza o índio, de cabelo desgrenhado”. O índio fica em silêncio e a entidade branca é a que fala, que "traduz". “Eu acredito que o branco seja o espírito santo”, diz Nemésio.
O fato de estar cinza de cabelo desgrenhado indica que o índio provavelmente se comunica com Nemésio a partir de uma outra esfera, ritual dos mortos em que polvilha o corpo com as cinzas da fogueira. Hipótese: para Nemésio o índio está morto, vindo de outro tempo. Para o índio, é Nemésio o morto futuro com quem se comunica.
O índio contou a Nemésio que havia no monólito um cemitério de crianças. Dentro da gruta da paineira barriguda, percebe-se uma pequena fenda, por onde não passa um corpo humano. Através da fenda há uma segunda gruta, “uma abóbada grande que se abre para um salão. Dentro deste salão ficaram presas as crianças janduís. Só dá pra ver através de um buraco.” O índio conta que as crianças foram escondidas nas cavernas durante a invasão. “Os índios fecharam a entrada e prometeram voltar, mas foram mortos. E as crianças ficaram presas com poucos mantimentos. Se abrirem a fenda, encontrarão ossos de crianças.”
Apesar de possuir físico europeu, provavelmente holandês (seu sobrenome é talvez Holanda já que sua sobrinha se chama Cláudia Holanda), Nemésio chama os portugueses de “invasores”.
Certa vez Nemésio pôs uma moeda de um real como oferenda na paineira barriguda. De noite o branco chamou de novo e veio o indiozinho dizendo que nao precisava disso.
O índio às vezes entrava na casa e pegava as coisas. Encostava cada objeto nos olhos, para senti-los. Dizia para se desfazer de alguns, porque estavam carregados. Nemésio se desfez.
Perguntamos quais foram esses objetos. E ele disse: o dragão, o boi e o baú.
Começou a contar a história do baú. “Era um baú grande de ópio, da China. O índio falou para se desfazer. Aquilo pesava na casa inteira. Depois que me desfiz do baú tudo melhorou.”
A mãe de Nemésio, depois de comprar o baú, estudou anestesiologia e morreu com uma doença que fazia necessário o uso de muita morfina. “Ela faleceu do lado do baú”.
Nemésio decidiu levar o baú para queimar do lado de fora. O baú não apenas pegou fogo, como estourou. Contou que quando abria o baú, estava impregnado de ópio já processado. “Dava para sentir o cheiro”. Uma vez, assistindo TV, viu no History Channel um baú exatamente igual, com os mesmos símbolos talhados. Disse que havia um baú pequeno e outro grande. “O pequeno era usado por uma mulher que ia passando ópio para o cachimbo das pessoas deitadas. O baú grande que era para transportar mesmo o ópio.”
“Eles continuam rodando pelo mundo esses baús. Chamam de opium box. Nele havia desenhos talhados, representando sábios chineses fumando ópio.”
Também tirou de casa uma cabeça de boi, “porque o invasor que trouxe o boi, não tinha aqui”, e um dragão esculpido, provavelmente chinês.
Lembrou que óperas também jogou fora. “Tragédias representadas pelos cantos, que é costume europeu contar as desgraças das pessoas. Certas literaturas que ficam representando tragédias, como crimes humanos, que ficam mostrando a decadência do homem, como na televisão.” As óperas também eram de sua mãe.
Um dia apareceu a entidade. “Seu Nemésio, ele quer que você venha, mas sem roupa”. Nemésio foi, levando consigo um maracá, “tocando lá um ritual”. Até que apareceu um carro na fazenda, e o índio foi-se correndo extremamente veloz, como um cachorro com as patas da frente passando pelas de trás.
Tudo ali fazia parte de uma geografia sagrada. Do outro lado, fora da fazenda, há um morro verde de forma piramidal. “O índio disse que era sagrado. Enquanto isso o branco não sabe ouvir a natureza. Não sabe ouvir as pedras. Hoje um senador (Tasso Jereissati) quebrou tudo porque encontraram pedras preciosas no morro. Se chama morro do coqueiro. Foi de ter falado que era sagrado que o pessoal ouviu e foi lá explorar e encontrou minério.”
Perguntamos ao Nemésio como descobriram isso. Ele respondeu que o serviço de inteligência botou escuta telefônica em seu celular, “porque estavam querendo saber do que eu vivia dentro da fazenda, e assim souberam que o morro era sagrado e foram lá examinar”.
Contou que um dia Marcélia encontrou cerâmicas com traços guaranis na Serra Azul.
Uma hora ele disse: “vocês querem saber do que vem de fora, mas não pesquisam esse cemitério de crianças, essas crianças que morreram aqui.”
Começamos a falar de Quixeramobim. Nemésio disse que conhecia a Pedra do Letreiro da Fazenda Alegre, e que aquela pedra grande que tem no alto, cheia de inscrições com formato de pata de galinha e com um furo grande, é na realidade um relógio solar para ser colocado na vertical. Que ele sentiu isso.
Falou também da Serra dos Cacos, que fica na Fazenda Uruquê, em Uruquê, antes de Quixeramobim, onde encontraram muitas cerâmicas, cacos, cachimbos, cabecinhas. “Tem uma parte lá que dizem que, se for, morre. Deve ser alguma coisa de minério que deve ter. Estrangeiros já exploraram, mas não brasileiros.”
“Tem Grafiteno que foi descoberto aqui perto. Que vai revolucionar a tecnologia.”
Devia estar se referindo ao grafeno.
Uma vez Nemésio ofereceu a um holandês uma formação de abelha. Tinha dado antes para brasileiros, mas eles desdenharam. Deu para o jovem holandês, que buscava matéria para sua pesquisa, “e quando ele fez análise descobriu um cimento biológico que se autorregenera. Imagina as novas construções que virão disso.”
“Tem também o veneno de uma vespa que virou remédio. Eu disse que para alguma coisa ia servir, e fizeram remédio para câncer de pulmão.”
Nemésio é um verdadeiro Philip K. Dick do sertão. Sua paranóia é visionária.
Quando íamos nos despedir, perguntei: “e os ETs?” Ele sorriu e contou que certa vez estava dormindo com sua irmã de noite no quarto quando o barulho do ventilador parou. Tinha faltado luz. Nemésio acordou com a ausência do som e viu uma pequena luz descendo pela parede, fazendo um barulhinho. Sua irmã despertou e perguntou assustada o que estava acontecendo. Ambos ficaram em silêncio observando. Depois a luz subiu de repente, partindo pelo teto, e o ventilador voltou a girar.
Contou também que costuma se deitar no chão da fazenda e olhar “pro meio do céu”, o centro da abóbada celeste. E que nesses momentos vê quatro pequenas luzes piscando e se movendo entre as estrelas.