Icó Icó Icó
Através de uma voz over empostada, Maara narra sua história, ilustrada redundantemente por meio de uma sequência veloz.
Antes que tivesse me apaixonado por pessoa alguma, joguei meu coração ao acaso e me o ganhou a Violência. Contudo, ambicionava o dom divino do amor ideal, que me acendesse espiritualmente, para que minha alma brilhasse em meu corpo como a chama sobre a lenha que a alimenta. Caminha entre pedras e árvores secas. Caminhava pela caatinga quando encontrei Cristo. Não era Jesus, era Cristo. Me ajoelhei e perguntei-lhe o caminho a seguir, pois minha família voltara-se contra meus designos. Cristo respondeu que matasse a todos. O importante é não tirar proveito, disse ele. Matar por matar. Matar porque veio a isso. É a sua cabeça, é o seu caminho, é o seu destino. Compreendi sem dificuldade. Em silêncio fiz o sinal da cruz e segui. Era um final de tarde em beira de estrada. Entre mangueiras e ruínas, armada de um punhal, matei meus próprios pais. De idade avançada caíram sem resistência. Os corpos inertes de paizinho e mãezinha no chão, eram tão lindos. Trepei na árvore. De cima via aquele mar de sangue. Silêncio. Quanta beleza. Silêncio. Cada ver é... Sim… Cada ver é... Repetia bem baixinho. Anoitecia. Neste instante tão supremo, hora mágica, azul azul azul, tornei-me outra, virei coruja em galho de árvore, virei bruxa, sortilégio feito gente. Eu sou um tabu. Matei minha mãe: eis o resumo da história. Foram ambos nisso espontâneos, ou ambos não o foram? Fazer o injusto, com efeito, não é idêntico a agir injustamente. Olhei-me em um pequeno espelho. Fiquei horas ali, parada ali, quieta ali, até o fim da escuridão. Falando comigo mesma, tomada de outra voz. Voz pausada de Othon Bastos versão bicha: meu nome agora é Diadorim, Iracema, Sertão, Ma-ara, Cariri. Motos se aproximam na escuridão. Motores, luzes, quem vem lá? É o Comando? A Polícia? O Exército? Maara espera. Homens armados de lanternas passam por debaixo da árvore, iluminando os cadáveres de seus pais. Que cena, meu deus, que cena. Maara desde os galhos, gritando, desce degolando homens ofegante. Depois o silêncio. Os carros que passam na beira da estrada, sem enxergar nada. Como se nada fosse. Silêncio. Maara abre um pequeno espelho em que se mira, provando com o mindinho um pouco de sangue alheio, escovando os dentes com um dos líquidos de deus e sorrindo. Dizem que a matança amaldiçoou a mangueira e nada mais cresceu ali. E vai embora com a moto de alguma das vítimas.